16.8.07

TERRITÓRIOS - Montemor é viável

«MONTEMOR É VIÁVEL»
Os tempos mudam. A paisagem urbana e rural muda com eles. Miguel Figueira, arquitecto da Câmara de Montemor-o-Velho, fala do «grande vazio» que ficou nos campos, deixado pela mudança dos meios de produção em que a agricultura perde importância, deixa de empregar mão-de-obra que foge para o sector terciário. Uma conversa sobre Montemor e a visão do futuro, a partir de um centro histórico que, defende Miguel, é o centro do Vale do Mondego, para desafiar a pensar uma ideia de cidade, como «eixo urbano que começa na Figueira e termina em Coimbra». O que lhe importa é: qual é a viabilidade de Montemor, no presente e no futuro. O resto, para ele, é música. Mas lá vai dizendo que os contextos urbanos, antes de serem cal e pedra, são gente. E, já agora, que «Montemor é viável».



Como arquitecto da Câmara de Montemor-o-Velho, como apresentas e como vês a vila, partindo do centro histórico?

Não tenho nenhum interesse particular ou específico dirigido para a questão do centro histórico... O que me interessa é a cidade... neste caso a vila... Quando falamos em cidade, no caso do Baixo Montego temos de falar neste eixo urbano que começa na Figueira e acaba em Coimbra. O que me interessa é esse processo, o processo da cidade. Centro histórico é uma convenção, foi o nome que agarraram, é um nome legítimo e transporta uma série de questões ligadas a isso, mas se analisarmos com atenção, percebemos rapidamente que a primeira associação em termos destas questões admonistrativas é a associação de municípios e a segunda é a associação de municípios com centro histórico. Ou seja, há uma concepção social que centra as atenções nessa questão. Sabendo isso, como arquitecto o que me interessa é intervir na cidade, independentemente de ser centro histórico, periferia... , essas questão não me interessa. Mas naturalmente se há esta convenção dos centros históricos, se há esta sinergia, e este envolvimento...

Mas há um sentido emblemático e simbólico ligado aos centros históricos que não pode ser ignorado...

Isso para mim é música. O que isso quer dizer é que há dinheiro para os centros históricos. O.k., então vamos trabalhar os centros históricos, porque qualquer dia vai haver o charme das periferias, já começa a haver. E se fizerem uma associação dos municipios com periferias, então vamos tratar as periferias...

Mas, para começar, queria perceber como é que como arquitecto vês a paisagem arquitectónica de Montemor e os seus valores. Não focando, então, ainda apenas no centro histórico.

Não focando apenas no centro histórico mas esse enquadramento remete-nos para um tempo de construção de cidade, que é mais um ‘t’ e onde há uma determinada forma de construir e onde há uma determinada regra, que me atrai. Estamos a falar da arquitectura, das tecnologias da arquitectura de pedra, que tem uma série de códigos. Mas dentro dessa limitação há quase uma expressão da individualidade, isto não é construído por arquitectos, isto é construído por pessoas anónimas, com um sistema construtivo muito rígido que dá uma determinada uniformidade. Isso interessa-me.

É essa a característica que tem?

É uma constatação. Se formos trabalhar para as periferias vamos ver outro tipo de situações e vamos ter de fazer essa leitura. Talvez tudo tenha a ver com o percurso de cada um, mas a minha opção por Montemor não parte daí. Eu estive fora e de repente quero voltar para esta zona, e vim para Montemor porque era no meio, entre Coimbra, onde eu imaginava que provavelmente ia trabalhar, e a Figueira da Foz, onde gosto de estar.

Mas há especificidade arquitectónica aqui?

Há este contexto de este ser um momento singular, um momento de excepção. Antes ainda de podermos falar de centro histórico e desta construção humana, há que pensar por que é que isto aconteceu aqui? Aconteceu aqui porque há este vale fabuloso, este rio que é o maior rio português, este grande delta, e há aqui um maciço de calcário, que emerge nesta planície de aluvião, que transforma isto num sítio especial. Depois, há realmente uma particularidade que talvez seja a diferença deste centro histórico, se o pensarmos dividindo aquilo que o constitui: temos centro e temos histórico. A questão é: Isto é centro de quê? Se estivermos em Guimarães, sabemos do que estamos a falar quando nos referimos ao centro histórico. Aquilo é o centro da cidade. Isto não é centro de cidade nenhuma. Onde é que está o resto da cidade? Há ali uma expansão tímida, ao longo da nacional mas isso acontece em qualquer nacional.

Mas então é centro de quê?

Se calhar é centro deste território. Se calhar é centro deste vale. Se calhar... Não. Certamente, desta relação que vês, que é construída, que tem uma tipologia que atesta desta relação com dois lados, desta dialéctica entre o construído e o não construído, que também é paisagem construida, com o vale, tens os celeiros, por exemplo... A sala B é o quê? É uma tipologia de um celeiro. Porque é que aparece aqui um celeiro? Aparece um celeiro porque tudo isto vive nessa relação, primordialmente não seria assim, tudo isto era navegável, e trata-se de uma relação de poder com o território, de controlo do território. O rio fazia aqui uma volta, tínhamos de imaginar que o rio era a grande via que ligava tudo isto. Se formos ver o rio primitivo, ele é um tipo de uma serpente, faz aqui uns «s» e faz duas diagonais que vão atravessar o campo, em direcção à zona de Verride e em direcção à zona de Pereira – também há essa questão singular. Depois, o grande desenvolvimento, isto que temos aqui construído, esta base, esta estrutura urbana, basicamente tem a ver com o grande apogeu depois da agricultura e a grande força da agricultura nesta região. E isso nota-se nestes testemunhos que temos hoje construídos, como os solares e os celeiros, que aparecem sempre associados. O que é que me atrai mais nisto? É tudo, porque não há figura sem fundo, mas é o campo, é esta relação. E estou convencido que se existe uma cidade ao centro, essa cidade desenvolve-se ao longo deste eixo urbano, vê-se isso no funcionamento quotidiano das pessoas, é absolutamente normal viveres na Figueira e trabalhares em Coimbra, como o contrário. As relações pendulares neste territórios são perfeitamente normais apesar de com grande esforço. Porque a infra-estrutura urbana ainda não acompanha este movimento, e este é um dos graves problemas. Aqui tens a vantagem de facto de estares no centro desse sistema. O que, curiosamente, não tiras grande partido disso. Mas acredito que tenha a ver com outras questões, designadamente questões de: primeiro, de autismo do lado de Coimbra, que está centrada sobre o seu próprio umbigo, é uma cidade virada para dentro, e depois com a Figueira que, não sendo completamente virada para dentro, é virada para o lado de lá, para o mar e a praia, não tem uma relação saudável com o vale, o que é um bocado estranho. Ali, o centro histórico é Buarcos. A Figueira é uma coisa nova, que se veio aproximar do rio e, no entanto, continua a não fazer essa ponte com o vale.

Essa é uma perspectiva que permite explicar por que a região do Baixo Mondego não tira benefício do seu contexto específico, que implicava a articulação entre todos.

Acho que é assim, Montemor, mesmo do ponto de vista político, está mais consciente desse facto, o que acontece normalmente, porque fica isolado no meio. É dificil a Figueira ou Coimbra despertar para isto, mas obviamente hoje cada vez mais, o papel não é aos países que compete, é às cidades. E se queremos ter alguma cidade temos de pensar para outra escala de território. Nessa medida, acho que Montemor faz todo o sentido, Montemor é viável.

Nessa lógica, voltando à questão dos centros históricos. O que é que se passa? Por que se estão a esvaziar os centros históricos?

Em Montemor temos de recuar quase ao séc XV para perceber isso. Estamos neste ponto da conversa: isto é centro e é centro de quê? É centro do vale do Mondego. A partir do momento em que a agricultura deixa de ter a importância que tem, no quadro económico global, naturalmente que isto entra em declínio, vai-se agravando sobretudo na última metade do séc XX. Se, até aí, para teres uma exploração destes campos toda a gente convergia no vale – e isto era um factor de união e agregação urbana, inclusivamente de todas as margens do vale, porque era aí que todos se encontravam. A partir do momento em que há esta alteração brutal – o campo passa a ser povoado por ceifeiras, avionetas, e agricultores de telemóvel a fazer esta gestão, que já são empresários da agricultura, inclusivamente esta obra de emparcelamento que ainda vai reorganizar toda esta estrutura do cadastro, transformar isto em unidades com uma outra produção, menos gente, menos máquinas, a produzir mais – o que acontece é que fica um grande vazio. Ainda hoje, em Montemor, continua a ser a agricultura o que mexe mais em termos de dinheiros, em termos absolutos, mas não é onde está a maior parte da população a trabalhar. Como em qualquer cidade da sociedade contemporânea, fugiu tudo para o terciário, para os serviços. Isso causa um grande problema: em crise o vale do Mondego. É uma crise não na dimensão económica, aí provavelmente há mais, mas na dimensã social, cultural e nas questões identitárias. Porque isto passa a ser um grande vazio. Se aquilo que era um factor de união de todo este território, e onde Montemor aparecia como um ponto de destaque, pela relação central que tinha, de repente deixa de ter sentido e deixa de ter presença na tua vida quotidiana – porque não estás lá, porque não a usas, porque a estrada foge a este contexto do vale, vai-se consolidando nas margens – naturalmente que se cai todo este sistema de relações, cai a importância do centro histórico. Ou cai a importânica de Montemor-o-Velho, porque as coisas estão sempre ligadas.

Mas em termos simbólicos também perdeu importância?

Nem em termos simbólicos nem noutros termos, porque há uma série de questões associadas. Continuas a ter aqui a sede do concelho, e nota que existem núcleos mais populosos no concelho do que em Montemor e isso não é uma questão que se discuta. E o castelo continua a ser um dos ‘landmarks’ neste território. Mas a questão é esta: quando andamos a pensar nos centros históricos, se andarmos nesta discussãozinha dos centros históricos, vamos para a questão do valor simbólico e começamos a gastar dinheiro à conta disso.

Então, na tua opinião, qual é a discussão que deve ser feita?

Qual é o papel de Montemor no presente e no futuro? Isto tem viabilidade enquanto cidade? E é isso que me interessa discutir. Esse é o meu ponto de partida. Quando falamos do centro histórico de Guimarães, Lisboa ou Porto, aquilo tem viabilidade? As pessoas podem reocupar aquilo? Faz sentido? Essas questões têm de se colocar, porque se estamos só na questão do simbólico, acho que à conta disso já se tem gasto muito mal muito dinheiro público. Estou a pensar nas aldeias históricas: 10 milhões para 10 aldeias. Aquilo está morto! Aquilo não faz sentido. Por exemplo, o Piódão.

O Piódão é uma preciosa aldeia perdida e escondida do mundo e que, por causa de não haver um plano de preservação da sua identidade, tem no meio daquela paisagem de pedra algumas construções que quebram como um ruído perturbador e destroem o que pode ser um grande pólo de atracção turístico, eventualmente... Mas, acima de tudo, preserva tem a ver com a identidade, o valor simbólico. Parece uma fábula inventada no meio da paisagem. Posso concordar que não há uma estratégia concertada com a acção da recuperação ou preservação que depois faça com que aquilo não cumpra o seu potencial...

Vamos meter as coisas nos seus patamares. A Dinsneylândia é legitima ou não?

São completamente diferentes. Podem, quanto muito, ser consideradas legítimas nos seus devidos contextos.

Mas economicamente é viável porque dá dinheiro, e é legítima. O que eu quero dizer com isto é: se quiseres manter umas aldeiazinhas-presépio, tipo disneyworld, tudo bem, se aquilo dá dinheiro tudo bem. Eu tenho algum pudor com essa atitude, porque a cidade ou aldeia, estes contextos urbanos, é uma ilusão pensar que são cal e pedra. Antes de mais são gente. E a partir do momento em que chegas ao café do Piodão e o senhor que vai abrir todos os dias vem de uma terra ali perto, nem sequer lá vive... Tudo isto me faz confusão. Estas questões são centrais para pensar Montemor. Se quisermos ver isto do ponto de vista do turismo, que deste como exemplo, temos de ver que há diferentes tipos de turismo. O turismo desportivo, o turismo religioso, que até é talvez o mais forte no nosso país, há o turismo sexual na Tailância... E aqui, em Montemor, estamos a falar de quê? Estamos a falar de um segmento de turismo que é o turismo cultural. Um dos valores essenciais do turismo cultural – e estamos a falar de um tipo de exigência ou especificidade que cada um tem, para o desportivo também há exigência –é o da identidade. E esse factor a partir do momento que não existe no Piodão, este passa a ser a disneyworld e passa para o outro campeonato. A partir do momento em que não tem gente perde a identidade...

Mas ali um dos problemas é precisamente não respeitar a traça... Mas não nos vamos dispersar...

Isso faz-me muita confusão, a traça é o bicho que come a roupa. Eu estou a falar de Montemor. Estou a falar de Montemor porque essa questão é essencial, porque a mim o que interessa de Montemor não é a questão da traça ou do gorgulho... o que me interessa de Montemor é precisamente a relação das pessoas, da vila, que tipo de vila é que isto pode ser, como se pode viver em Montemor... Isto tem de fazer sentido para quem aqui vive, eu vivo aqui... Como arquitecto, gosto muito das cidades e visito com frequência, agora há uma coisa que temos de aprender, temos de ter em conta este facto que o gozo de trabalhar nas cidades é até a vulnerabilidade que têm, o facto de nunca conseguimos dominar completamente este bicho. Intervimos ali e ele foge para o outro lado e temos de estar atentos. É o jogo do SimCity, metes mais polícia mas depois tens outros problemas, porque vêm os ladrões... Isto é dificil controlar, mas é dificil porque é dinâmico e é activo. E tem vida! Mas como tem vida também tem morte, porque a morte também faz parte da vida e é preciso deixar morrer com dignidade. E o que estamos a fazer no Piodão, e nas aldeias históricas a meu ver, é uma coisa tipo Lili Caneças... andas a segurar aquilo com pinças e a fazer implantes de silicone... Dizia um senhor que já faleceu que uma bela obra dá uma bela ruína... À época de construção destas arquitecturas havia mais bom senso do que hoje, e as coisas tinham um desempenho útil e eram feitas nessa estrita medida. Hoje estamos a musealizar estas coisas...

Mas Montemor é um caso diferente.

Montemor tem uma coisa que é mais engraçada que o Piódão, é que tem alguma dinâmica. Mas essa dinâmica não é positiva, em termos do património, tem estragado. Andas por aí e vês estes chapiscos grossos de uma determinada época, os estores por fora... Mas não esqueçamos o mais importante: é que tem dinâmica e isso é positivo. Nesse sentido, e como estamos a usar o Piódão, como podíamos estar a usar outro caso como paralelo, aquilo não está estragado porque não há dinâmica, e isso é que é grave. Prefiro que haja uma dinâmica. Porque se há dinâmica podes, eventualmente, reconduzir o processo. Se não há, está morto.

Então, qual é o ponto da situação relativamente a Montemor?

Acho que isto tem viabilidade em termos urbanos, de ocupar um papel. Acredito que Montemor pode, nesta cidade que estamos a falar, do vale do Mondego, vir a desempenhar um papel muito interessante. Não sei se é um papel central. Mas as cidades hoje não são feitas apenas de um centro, mas de vários centros. Mas há uma centralidade que Montemor tem, que é a centralidade deste relacionamento ímpar com o vale.

Mas de que modo é que o Plano de Salvaguarda do Centro Histórico vai contribuir para que isso se concretize?

O plano de salvaguarda é uma coisa muito dirigida, num âmbito muito estrito que tem a ver com a transformação física do suporte, desta vila, que tem a ver com, por exemplo, como é que se mudam as casas. Mas a questão que me preocupa é a que está a montante do plano, porque isso é um instrumento, nem sequer é a acção. Entretanto estive na Câmara a trabalhar especificamente na questão deste centro histórico mas não foi só deste, foi de três centros históricos, foi Montemor, Pereira e Tentúgal. Isto é feito com um protocolo com a Comissão de Coordenação da Região Centro, a CCDRC, e é feito no âmbito de um programa das áreas urbanas degradadas. E como sabem que isto demora pouco tempo... não é?.. pedem-nos logo o plano, ou o instrumento. E a questão que se me colocava logo na altura, e que se coloca ainda hoje, era o ridículo da questão: estás numa espiral de degradação, de fuga do centro histórico, vais regular o quê? A saída da população residente? Não faz sentido. Primeiro, tens de acreditar e tentar perceber qual pode ser o papel. E se encontrares um papel, que isto tem viabilidade, então intervéns. Apercebi-me que tem viabilidade, tanto acredito nisso que decidi comprar cá uma casa e vir para cá viver. Quando tinha os 3 centros históricos tinha dois da margem direita e um da margem esquerda. E a questão do campo pôs-se logo ali. O que é que acontece? Por que é que são dois de um lado e um do outro? Como é que eles se relacionam? Relacionam-se com o campo.
Agora voltando à escala da cidade – quando eu falo da escala da cidade refiro este eixo urbano em torno do vale, que pode começar em Coimbra e acabar na Figueira, mas também apanha Soure e também apanha Cantanhede. O centro desta região e centro do vale. Qual é o desempenho que pode ter o vale neste contexto urbano? Isto não é o grande corredor verde? Estamos a entrar no século da água, e mais não sei o quê... Não temos de repensar o território também em função deste espaço verde? A partir do momento em que ele é viável, então vamos ter um papel importante em Montemor porque há uma relação muito importante entre estas duas realidades. A questão é esta: neste momento tenho estado a trabalhar sobre a questão do centro náutico, que é absolutamente central, estamos a falar de um grande equipamento à escala nacional, que vai trazer um uso completamente diverso da questão da agricultura mas compatível. O que me interessa é devolver centralidade ao campo. Mais do centralidade, é significado, resignificar o vale. O que me interessa é que ambas as margens possam convergir para o campo, para qualquer coisa. No passado, era com uma enxada, mas gora pode ser com uma pagaia...

Mas há aqui uma questão que tem a ver com a identidade e com a significação de um lugar, que me reconduz novamente para o centro histórico... e tudo isso me parece sem sentido se não houver uma salvaguarda do centro histórico, se ele for secundário...

Não é secundário. O desempenho urbano deste centro depende de todo este conjunto e da sua posição relativa, porque não existe numa forma isolada no mapa e partir do momento em que consegues resignificar todo o contexto urbano. Estou a falar do contexto envolvente. E a partir do momento em que devolver um outro significado ao vale, em que passa a ser usado e passa a ter uma outra visibilidade, naturalmente que isso se vai repercutir no centro histórico.

No meio de tudo isso, não percebi ainda como está previsto intervir no centro histórico?

O plano de salvaguarda tem um enquadramento legal, é feito dentro de uma matriz legal. No caso de Montemor, fizemos um estudo exaustivo, muito demorado mas que era fundamental, não apenas para percebermos quais eram as regras que se deviam transformar em normativa para fazer essa transformação, queríamos que as regras não fossem uma invenção nossa mas fossem decorrentes dos sistemas constitutivos específicos desta realidade. Fomos fazer essa leitura para depois transpor isso em termos da normativa para a transformação dos privados. É comum nos planos, como são da administração, acontecer que o agente público propõe, estabelece os compromissos para os terceiros e não para si próprio. No plano, tivemos o cuidado de que estes compromissos fossem para fora mas também para dentro. Ou seja, todo o centímetro quadrado do centro histórico define e compromete a autarquia. Entendemos que há um papel negligente do passado, que deixou chegar a esta situação, e portanto agora tem de ser a câmara também a repor o processo.

Podes dar-me exemplos concretos enquadrados no Plano de Salvaguarda?

O plano é instrumento, fundamental, para defenirmos as regras, para termos garantia de que as coisas se vão transformar na direcção que contratualizámos com toda a comunidade. A Biblioteca Municipal, por exemplo, que foi uma intervenção que iniciámos ainda antes do Plano. Estamos a falar de arquitectura completamente contemporânea, e no fundo estamos a reabilitar, estamos a pôr caixilhos de madeira, estamos a trabalhar a telha, uma série de códigos... Trata-se de uma tipologia de excepção, é um solar, vai ser um equipamento, não vai ser uma habitação, o que corresponde (a habitação) a mais de 90% dos casos. Mas é significativo porque era património municipal quando chegámos a esta câmara, estava a cair, completamente degradado. Eu sou o chato do plano. É fundamental mas não é a questão central. A questão central é a acção, não é o instrumento.
Acho espantoso que se utilize a Europa do Norte como o paradigma do desenvolvimento. Nós somos povos do sul, e o nosso paradigma está muito mais no norte de África ou em Istambul do que no centro da Europa. Nesse sentido, temos uma relação muito complicada com a legislação, como comunidade. O que fez mais até hoje pela reabilitação em Montemor? Foi o arranjo dos espaços públicos de Montemor, foi a seguir a isso que os privados começaram a cuidar das suas coisas. O plano tem de vir acompanhado de uma dinâmica em que a Câmara está a agir. Nós estávamos a fazer estudos do plano, e ao mesmo tempo estávamos a encetar acções e íamos criar o regulamento. Na altura, estamos a falar há 10 anos, eu também vinha com alguma ingenuidade em que acreditava que isto funcionasse... Para teres uma ideia, a Biblioteca foi a primeira candidatura que fazemos e só vai inaugurar agora...

Mas em termos concretos, quais são as grandes preocupações identificadas no Plano e que estão ali salvaguardadas?

Temos de ter em conta que 90% do destino disto é habitação, é o uso principal. Para reutilizares estas formas construídas, se eram habitação, a transformação em habitação é o mais adequado. Uma das coisas que os planos fazem é o zonamento. O que é o quê? Identificam: aqui é habitação, aqui é comércio... Nesta parte de baixo, reforça-se o carácter comercial de todo este eixo à quota baixa, e depois há um trabalho que desenvolvemos que chamámos ‘à estrutura activa’ – que significa fazer a leitura do que é funcionamento e usos. E percebemos que há um funcionamento em que, por exemplo, aqui no início do século XX, a rua principal de Montemor não era em baixo. Depois passou aqui a Nacional e isto foi ganhando esse caracter mais central. Mas a rua central é a Direita ao Castelo, porque naturalmente há uma relação entre o Castelo com toda esta parte. E ao longo dessa rua foram aparecendo as tipologias, os tais solares, celeiros. E o essencial, quando fazes uma reflexão sobre o construído e sobre as formas que herdaste, é pensar: como transformas isto para o futuro? O solar, era uma habitação de uma família supostamente muito rica e hoje é dificil que alguém agarre num solar inteiro, depende da escala, mas que pode ser fraccionado, continua a poder ser habitação ou eventualmente pode ser outra coisa qualquer, pode encaminhar até para a questão dos serviços ou dos equipamentos. Na questão dos celeiros somos completamente peremptórios. Os celeiros são os equipamentos de Montemor. O que procurámos fazer foi – em vez de vestirmos o casaco de Deus e começarmos a desenhar a cidade, a dizer ‘aqui fica bem isto e ali aquilo’ – perceber o que a estrutura tinha e como é que íamos encaixar. Fizemos um zonamento que não se faz normalmente, que é o zonamento homem a homem, ou casa a casa, tipologia a tipologia, porque começas a fazer estas leituras. Fizemos uam coisa que era o percurso cultural. Há muita dessa malta que visita a Disneylândia e quer ver esses cromos, como é que resolvemos isto? Vamos dar-lhes um percurso. Qual é o percurso cultural? Não vamos inventar nada. Vamos perceber o que é. E há um percurso cultural em Montemor. O que importa é lê-lo no território. Esse percurso é legível porque corresponde com a rua, que é a Rua de Comieira, deste morro, e com a Rua do Limite da Encosta, ao longo dessa rua – porque ela tem uma singularidade ao nível da topografia que a elege logo como primeira mas que depois o eixo monumental se vai construir ao longo dessa rua. É inevitável que assim aconteça. Hoje não se constrói com tanto bom senso mas no passado isso era um traço muito forte e isso lê-se com muita evidencia. E esta leitura é feita não só ao nível do construído mas ao nível da apropriação do uso das pessoas, a tal questão central que estávamos a falar. E também ao nível do ritos, pagãos e religiosos. Porque se fizeres um passeio atento por Montemor vais-te aperceber destas capelinhas que andam aqui, que têm este reflexo construído, também têm a ver com esta dinâmica, que são estas capelinhas da via sacra que estão localizadas precisamente neste eixo que te referi, fazem a ligação do Castelo com a rua.

Claudia Galhós