6.8.07

CRÓNICA - Fra Angélica em Montemor-o-Velho

fotografia de Jesús Ubera


FRA ANGÉLICA EM MONTEMOR-O-VELHO

Do atento, nestes dias.
Despachar algumas artroses mentais, por reunião em rola barca, um carro de máxima demografia, algumas bioenergias não aproveitadas para a velocidade, A14. Não sei se o Manuel Azevedo, parágrafo residente do livro, chegou a perceber que estava noutro sítio, enquanto o Salviano Ferreira nunca tirava da testa clandestina os seus óculos de cabelo. Ouvi, com o Alexandre Teixeira Mendes, o reboliço do Aurelino Costa no seu enfiar num dos buracos das ruínas com águas de mangueiras equilibradas na distribuição aos peregrinos vegetais. Tínhamos entrado no Castelo, para mim era entrar na secondlife, já a Ana de Sousa e o David escorregavam pela calçada com fome do que estava a chegar. A grande revelação de Montemor passeava-se nos verdes e pedras da sala de chá. Falámos muito com esses três reveladores, de distintas tisnagens e absoluta tranquilidade. Aurelino dedicou-se mesmo ao amor com um desses felinos e abriu a goela para uma série de fotografias que nunca veremos, espero eu, como identidade não-nipónica. Enfiámo-nos pouco mais tarde nas cesuras das muralhas até ao rés-do-chão da praça onde o miguel nos aperitivou com a saliva da estranheza do imenso vazio das casas sem gente. Aguentámos o embate até debaixo da ponte onde nos moemos demasiado tempo, porém ali estava Sandra Costa e o seu extraordinário brilho que me consumiu de imagens de corvos acutilantes.
Havia que reconhecer que todos estávamos lesionados. Pelo desaire da nossa existência. As libertações orgânicas tinham um efeito chalupa sobre os mausoléus dos crentes em metáforas caninas. Tudo a comer, tudo a comer. “Quem não conhece a ruína nada sabe da vida”, disse-me angélica num texto que se me enfiou nos ouvidos à entrada para a sala B. Levava o corpo e uma extracção de água. Ao 3º embate – neste interim os embates são designados por performances – já angélica se desfazia do código biográfico para explicitar autobios. O cavalo; o portento cavalo; “o mais importante é ter alma de cavalo” confiou-me artaud que viajara nas malas. Os últimos 4 minutos videográficos deste 3º embate ainda me vivem na cabeça, é uma paixão lento-fulminante de que nenhum dedo dos meus pés se atreve a abstrair. Angélica Liddell entrou nos meus pés, os meus pés pertencem-lhe. Poderei dar-lhe ou devolver-lhe os pés. Depois do mar, aquele mar com litoral de osso.

Alberto Augusto Miranda