18.7.07

DIÁLOGOS - Estar distante é perder espelhos

fotografia de Marta Pisco


Uma oportunidade para revisitar esse género chamado “entrevista”, para humanizá-lo e dar espaço a que o criador se explique e não seja questionado.


ESTAR DISTANTE É PERDER ESPELHOS

Oito Exercícios para Mãe e filha, de Marta Pisco.

Marta Pisco diz que «as famílias esfrangalham-se à noite», a propósito de «Oito Exercícios para Mãe e Filha», a peça que está a criar em residência artística em Montemor-o-Velho, no âmbito do Festival Citemor. Esta é uma peça com sabor a filme de Bergman, nesse ambiente nocturno familiar perturbado, onde «estamos na metáfora da vida no palco, e com os próprios fantasmas em palco». «É teatro» - diz – «não é a vida». A fronteira, entre uma e outra, é o enigma que fica por discutir.


Marta Pisco é arquitecta. De profissão. Trabalhou nessa área em Amesterdão (onde estagiou) e em Londres. Passou por Portugal, para dar aulas no Politécnico de Portalegre, em 2000. Mas uma história de amor leva-a de volta à Holanda, em Outubro de 2002. E é lá que o teatro lhe surge no caminho. Enquanto procurava descobrir o que queria fazer, encontrou o Das Arts, uma pós-graduação para artistas que estejam de algum modo ligados ao mundo da performance.

A Das Arts é uma escola onde teve a oportunidade de ter orientadores de renome internacional e com projectos autorais muito marcantes, provenientes de diferentes disciplinas e perspectivas de abordar a performance muito distintas. Ali, Marta teve, desde logo, uma forte vertente de trabalho prático.

O teatro entrava-lhe pela vida de uma forma mais concreta porque, na realidade, havia já uma sensibilidade no estar com os outros que tinha algo de teatral – foi o que sentiu, por exemplo, quando deu aulas. Este mês, está de volta ao seu país de origem. Marta Pisco tem 32 anos. Está a dar os primeiros passos como criadora de... teatro? Mas tem já uma história longa, por outros caminhos e outras paisagens, para contar.

Nessas primeiras experimentações, em que tinha de enfrentar o público na escola, começou instintivamente a trabalhar com o vídeo, com a luz, e a dança – disciplina com a qual já tinha alguma familiaridade, mas aqui mais abordada «no sentido do espaço e de mexer no espaço e com a imagem, com desenho, de grandes dimensões e projectado». Ou seja, «aquilo com que sei trabalhar», diz. Até porque, recordando uma conversa com um amigo, acredita que «a faculdade serve para aprender três coisas, independentemente do que se faz: falar, escrever e pensar». No caso dela? «Aplica-se perfeitamente ao curso de arquitectura. Mas tive um bónus, que foi aprender a desenhar».

Na Das Arts experimentou a partilha de competências e foi um pouco mais longe, ao ser desafiada para explorar as lógicas das trocas e das colaborações contemporâneas: «Comecei a aprender a editar filmes, a filmar, a tabalhar a voz... Aquela escola, no fundo, cria uma comunidade de alunos em que temos uma vivência muito próxima uns dos outros e em que cada um, com a sua característica técnica e conhecimento, ensina e partilha com os outros… Rapidamente comecei a trabalhar em projectos de amigos e com funções que não estão dentro das minhas áreas…»

A primeira peça profissional que diz ter feito é relativamente recente: aconteceu em Abril de 2006, e era o projecto final do curso. O título: o mesmo nome da peça que agora apresenta no Citemor – «Oito Exercícios para Mãe e Filha» - mas em inglês. Apesar dessa aparente simples tradução, os dois objectos são distintos e não se podem confundir.

Tinha, por essa altura, começado a trabalhar com vídeo e luz, e com aquilo que sentia que tinha de resolver primeiro: «Esta questão de estar fora e de estar fora tanto tempo que começas a desaparecer. Este espaço que se ganha quando se perdem as raízes. Não apenas as raízes, mas também os espelhos. Porque as pessoas que estão à tua volta são os teus espelhos, confirmam aquilo que és, são os amigos e a família. Quando deixas de ter isso à tua volta, começas a ficar reduzido ao essencial. É estranho...»

No projecto final, dois temas surgiram como interesses imediatos, que continua a perseguir hoje e que vai desenvolver no espectáculo que tem ante-estreia agendada para o Citemor (dias 26 e 27 de Julho) e estreia em Novembro, em Lisboa, no âmbito do festival Temps D'Images: a Revolução do 25 de Abril e a relação entre mãe e filha.

«O 25 de Abril surge por uma questão de afectos, porque nasci em 1974. Existe uma grande afectividade e nostalgia por esta Revolução em que não estive. Há esta impossibilidade de falar da Revolução porque não há apenas uma versão da história, e por isso a abordagem à ideia da Revolução só pode ser feita ao nível da história pessoal. Portanto, a única forma que tenho de falar dela é na primeira pessoa.»

Marta Pisco apresentou uma primeira abordagem aos dois temas no final do curso. Os orientadores disseram-lhe que a peça tinha uma atmosfera de Bergman. Marta foi ver alguns filmes do realizador, para perceber o que queriam dizer com esse comentário. Descobriu algumas afinidades: «Desde logo, a relação entre mãe e filha. Eu andava a fazer experiências com actrizes, elas improvisavam e eu filmava, e tinha muito a ver com o espaço que filmei. Não só ao nível do psicodrama, mas tinha a ver com a luz que usei, com a forma como falavam umas com as outras, e com uma certa atmosfera de sonho. Nos filmes que vi, há muito esta tendência de se passar à noite. Eles bebem imenso, embebedam-se e a verdade vem ao de cima. Muita coisa acontece à noite, e sempre num ambiente de casa, e pratos a bater e copos..., e as famílias esfrangalham-se à noite…»

Uma das críticas, ou comentários, que recebeu, foi que era uma «peça em exílio», porque «contava a história do 25 de Abril, em palco, aos holandeses» e abordava de um modo que, num contexto português, teria de ser diferente. Sentiu, da parte dos mentores do curso, o desafio para desenvolver o projecto em Portugal. É o que está a fazer agora, numa nova versão, ainda em processo de criação por ocasião desta conversa, e apadrinhada por Jorge Silva Melo, que tem acompanhado o sonho do teatro de regresso a casa de Marta Pisco.

O resultado… Depois se verá. Para já, Marta procura abordar uma ideia de Revolução muito pessoal. «É uma revolução individual, uma libertação individual». Em que sentido? «De mim, e das pessoas em geral. Até das mulheres, da possibilidade de nos libertarmos desta obrigatoriedade de sermos mulheres e termos filhos e de a mãe e a filha nunca se separarem realmente, numa haver uma verdadeira guerra. Por exemplo, a voz das raparigas não muda, como acontece com os rapazes... E as raparigas são, de algum modo, estas crianças grandes que, de certa maneira, repetem o ciclo das mães. Acho importante rompermos este ciclo, desta relação que fica numa espécie de líquido amniótico».

«Oito Exercícios para Mãe e Filha» é uma peça para três actrizes, um músico e um videasta. Neste elenco, tanto a música como o vídeo, segundo a própria, funcionam como personagens, sendo que a música tem uma presença especial, «funciona como fantasma, um fantasma que anda por ali a flutuar, a admirar…». Dos materiais de criação desta peça, para além do trabalho de improvisação com todos os artistas envolvidos – entre os quais se incluem as actrizes Helena Flor, Joana Pupo e a própria Marta Pisco – consta «Sonata de Outono» de Ingmar Bergman.

A cerca de três semanas para a ante-estreia, Marta explicava o momento de criação em que se encontrava: «A forma como estou a resolver agora tem a ver com esta necessidade de libertação. Não sou a mesma pessoa que era há um ano e meio, ao nível das coisas que tenho para resolver. No momento em que estamos, é mais ou menos como se fosse um pesadelo, porque a cena do Bergman é uma cena de pesadelo... Depois de vermos aquilo muitas vezes e vermos o texto, chegamos à conclusão que só pode ser teatro. Não é verdade. Não é possível dizer aquelas coisas numa noite. Então funciona tudo nesta solução teatral em que estamos na metáfora da vida no palco e em que tens os fantasmas em palco. Não é a vida. Não há necessidade de fazer a vida em palco. É teatro. É teatro como eu o consigo fazer…»

Claudia Galhós