26.7.07

DIÁLOGOS - Salvamo-nos quando nos representamos

fotografia de António José

ver videos

Uma oportunidade para revisitar esse género chamado “entrevista”, para humanizá-lo e dar espaço a que o criador se explique e não seja questionado.


SALVAMO-NOS QUANDO NOS REPRESENTAMOS

Breve conversa com João Brites e Teresa Lima a propósito de «Os Vivos», uma estreia do festival Citemor.


Chama-se «Os Vivos», a peça que O Bando estreou em Montemor-o-Velho, no passado dia 19 de Julho (e que pode ser vista de 13 de Setembro a 21 de Outubro, em Palmela, no espaço do Teatro O Bando). Este texto de Jacinto Lucas Pires marca o regresso do colectivo de João Brites ao festival Citemor, com uma década de intervalo.

No começo, havia «Luto Clandestino», uma breve contracena, entre dois actores – que representam uma mãe de uma filha morta e o jovem namorado da falecida – que estreou em Palmela no âmbito do festival de rua Fiar. Ali, como em Montemor, o cenário real composto pelo movimento natural das pessoas e dos carros que passam enquadrou a acção na respiração da vida. Nesta nova versão, esse primeiro texto é o primeiro acto de uma peça maior.

Mas no início, neste teatro que procura sempre novos caminhos, havia a ideia de ensaiar um diálogo entre dois actores sem que eles soubessem quem o outro era. Os ensaios decorriam apenas sustentados pelo calor e espessura da voz e a ausência da visualização do outro, como explica João Brites.

Disse ao Jacinto Lucas Pires que queria fazer um cruzamento entre duas personagens, uma muito velha e um rapaz muito novo, que se encontravam e ,como os actores, não se conheciam. Fizemos alguns ensaios sem eles se verem, só com a voz, com uma cortina no meio. A ideia era tentar criar no imaginário de cada um, um outro que não se consegue materializar, e depois há um dado momento em que desvendamos e eles se descobrem. Eles entravam no Bando sem se ver, criaram no imaginário de cada um a possibilidade de quem é o outro. Mais tarde, deu-se o encontro, e foi muito comovente esse primeiro encontro. Tento sempre encontrar um processo qualquer que me ajude a criar um caminho para poder aplicar dramaturgicamente. Encomendámos ao Jacinto esta ideia desta relação sentimental ou amorosa entre duas pessoas de idades muito distantes e eu conheci este jovem actor, que é aluno, o Dinis Machado, que fez o exame de admissão nesse ano ao Conservatório, que tinha um aspecto imberbe e que gostava muito de trabalhar com a Paula Só. Juntei aqueles dois mantendo-os muito distantes um do outro. O Jacinto também gosta muito de escrever conhecendo os actores, e portanto foi o início de um encontro de duas pessoas muito distantes. Depois foi o Jacinto [Lucas Pires] que começou a focar na ideia da perda, ou do luto...

A distância ganha na peça um sabor a intimidade. As conversas entram-nos pelos ouvidos, pelos ouvidos de quem assiste à cena, através de pequenos auscultadores que permitem que todo o diálogo se mantenha na esfera de proximidade dos actores, vistos à distância e sem a voz ter de se projectar, em registo teatral, para fora desse eixo. Chegam a nós, a cada um da assistência, individualmente, nítidas, com as mais pequenas hesitações, suspiros... E por entre a berma da estrada onde o carro verde está estacionado e onde os dois se entregam à angústia da perda, há sons que vêm de fora, das pessoas que passam, dos carros que os cruzam... O teatro escolhe misturar-se e confundir-se com o real.

Tinha também a ver com o facto de querermos um grande contraste entre as pessoas estarem no meio de uma confusão enorme mas nós podermos ouvir e perceber a conversa delas, e não tínhamos nada de estar a declamar ou a dizer muito alto. Não tínhamos de estar a assumir o lugar teatral. O lugar teatral era o nosso imaginário, porque de certa forma não existia. Era o quotidiano onde eles estavam inseridos e o espectador é que tinha de constituir a metáfora ou a transposição para a arte, o teatro, através da audição. Quando fizemos as primeiras experiências, foi muito curioso porque era muito mais do que eu pensava. Supus que fossem uns segredos, mas não é. O teu imaginário varia completamente, parece que estás num filme, parece que aquilo ocorre num campo de visão, na moldura que o próprio espectador estabelece, e curiosamente o espectador não sente grande necessidade de se aproximar. E nós também tentamos que ele veja de longe, realmente, sobre um enquadramento. Não há espaço cécnico, por isso é que em Montemor eles representam na estrada, no passeio, ficam apertados e não dá para estar ali mais ninguém. Assim obriga o espectador a criar o seu ângulo de visão. Ele próprio pode criar, como se fosse uma câmara, o seu ângulo de visão, o que acaba por ser uma questão que trabalhamos nesta peça, as perspectivas. Mas dá também uma certa solidão. O espectador está junto, rodeado de outros, mas está sozinho, ninguém vê exactamente aquilo que ele está a ver. E esta ideia do luto como ideia de solidão, de vazio, de uma pessoa consigo própria na ausência do outro, que não está, era a tentativa de aglutinar um pouco este mundo e como é que se sobrevive a esse vazio, a essa solidão, o que é que a gente constrói, como é que isso se transforma noutra coisa…

A morte surge como tema inicial, mas depois o que fica a sussurrar ao ouvido é a vida. A possibilidade da vida, depois da perda. E o teatro como uma possibilidade de libertação. Diz Teresa Lima (responsável pela oralidade que determina muito da atmosfera dos espectáculos de O Bando) que «salvamo-nos quando somos capazes de nos representarmos». Mas ela explica melhor.

«A primeira história era para nós muito centrada na ideia da morte, mas foi muito interessante porque teve uma evolução e já não é a ideia da morte, mas como é que os vivos sobrevivem à morte. O enfoque passou a ser outra coisa, como é que cada um de nós se safa à morte. Na primeira história fica uma grande angústia porque aquela mulher não se safa, safa-se mal, o que é que vai acontecer àquela mulher? Há uma espécie de um final... um pouco interrogado... Na peça ’Os Vivos’ há um bocado esta ideia de que nós só nos salvamos quando somos capazes de nos representarmos. Portanto, a psicanálise dirá: quando somos capazes de nos verbalizarmos. Nós diremos: quando formos capazes de nos representarmos. Porque é verbalizar, mais corporizar, mais imaginar, mais tudo o que faz parte da teatralidade. Isto partindo do principio: cada pessoa terá uma maneira pessoal de se safar à dor. Esta ideia, que o Jacinto apontou, nós aumentámo-la, e o que se vê é que as pessoas estão numa luta contra os seus próprios medos, e vão vencendo-os quando brincam consigo mesmos, no sentido de jogo, que é mais interessante do que representar. E jogando, libertam-se, e interagem. E a base de tudo isto é: toda a história é um conjunto de pessoas que encontram um caminho para a sobrevivência.»

Claudia Galhós