29.7.07

DIÁLOGOS - Coleccionador de objectos comuns

fotografia de Jesús Ubera

Uma oportunidade para revisitar esse género chamado “entrevista”, para humanizá-lo e dar espaço a que o criador se explique e não seja questionado.

COLECCIONADOR DE OBJECTOS COMUNS
Conversa com Rafael Alvarez

Estar longe. Estar perto. Cada um dos breves solos de Rafael Alvarez, criados e interpretados pelo próprio, no Citemor, começa desse modo diametralmente oposto. "Última Chamada", peça estreada em 2005, em Lisboa, no âmbito do festival Número, começa nesse "estar longe". "Colecção Privada", em estreia em Montemor-o-Velho, começa nesse "estar perto". As duas compõem um díptico que, para o ano, o criador quer completar numa trilogia, a finalizar em peça de grupo. Apesar dos extremos opostos de onde parte, ou para onde sente que o existir se instalou, distante ou próximo, ambas revelam um sentir comum, que se manifesta em cada caso igual e diferente, dos quais "sentir saudades, coleccionar objectos" ou "perder a noção do tempo" são apenas alguns exemplos. Ao jantar, instantes antes da estreia, há tempo ainda para uma conversa sobre esse movimento do corpo em diálogo com objectos do quotidiano, e que o criador situa no território da dança.


De que forma é que esse oposto, com que inicias a sinopse de cada texto, "estar longe" e "estar perto", depois resulta em dois objectos distintos mas que também revelam ligações e repetições?

Apesar de serem trabalhos autónomos e independentes, fazem parte da mesma trilogia. Até 2008, penso fazer uma terceira peça, que em princípio será de grupo. Mas parto das mesmas bases de trabalho, da mesma metodologia e da mesma ideia. Esta ideia de pensar os relacionamentos e os objectos que estão ligados à nossa vida, e à minha vida pessoal também, e a questão da identidade. Isso reflecte-se num paralelo na abordagem do texto, que verificas na sinopse, porque são coisas que se cruzam muito. Muito embora no primeiro solo, que desenvolvi em 2005, "Última Chamada", mas que aqui apresento também, estivesse mais focado na perspectiva dos espaços públicos, espaço da cidade e da mobilidade, na ideia de trânsito e a ideia também de como é que percepcionas os relacionamentos amorosos enquanto pessoa singular. A ideia da pessoa sozinha, que relações estabelece com a quebra ou com a construção de uma relação. Também há esta ideia de pasagem e de mobilidade entre relações, nesta perspectiva de pessoa singular. Neste segundo solo, "Colecção Privada", parto da mesma ideia, nesse sentido de focar nos relacionamentos amorosos, mas agora nos espaços domésticos e no espaço privado, e pensando a dois. Ou seja, relativamente às relações conjugais de um casal, o que elas estabelecem com o espaço da casa. Ou melhor, com os espaços domésticos e com o binómio entre público e privado.

Há materiais diferentes e uma perspectiva diferente, mas o tema das relações é comum, numa perspectiva individual ou de casal. De que forma é que trabalhaste as repetições que recorrem de uma peça para a outra?

Há coisas que se repetem, isso foi uma das metodologias de trabalho. Ou seja, parti das metodologias que já tinha desenvolvido, parti também dessas bases temáticas. Nesta segunda peça foi trabalhar assumidamente esta questão de duplos, pares, parelhas, casais... tanto nos objectos que estão em cena como também nas acções coreográficas, e de famílias de objectos. Mas depois, na prática, este trabalho é uma instalação de objectos mas que está orientada ou estruturada a partir de uma grelha coreográfica. Eu tenho acções coreográficas, tenho uma escrita coreográfica muito clara e muito precisa. É uma coisa muito minuciosa, mas que se desenvolve a partir da identidade dos objectos. Os objectos são a raiz do trabalho e o que eles simbolizam por si só. A minha tentativa foi não transformar objectos em adereços cénicos. Foi usá-los com a carga que eles têm, por si só. Com o que simbolizam por si só. Mas é com as minhas acções e o posicionamento deles no espaço que eles ganham diversas possibilidades de leitura. E as acções, que eu desenvolvo com eles, é que estão assentes nesta escrita coreográfica. Digamos que o meu corpo, e o movimento dos objectos, estão submetidos a uma escrita coreográfica.

O que queres dizer com 'objectos por si só'? Porque também defendes que são objectos que ganham sentido na tua relação com eles.

As duas coisas. Também são objectos que têm uma leitura imediata por qualquer pessoa, qualquer pessoa encontra uma afinidade ou tem uma imagem de proximidade com eles, seja uma mala de viagem, um casaco, uns óculos de sol, um mapa, uma garrafa de água...

Mas é autobiográfico? Ou seja, são objectos que surgem do teu quotidiano, têm um significado particular para ti?

Não é assim tão claro. Há objectos do meu primeiro solo que, por acidente e por acaso, os encontrei ao longo do processo criativo. Na rua ou à porta de casa, ou numa viagem particular de trabalho, entre viagens e relacionamentos amorosos... Têm esta conotação de construir um mapa de relações numa dada altura. Tem este lado ocasional e de acidente. Alguns importei-os para o trabalho e depois associei outros objectos, outros foram importados de peças anteriores... No segundo solo isso já não acontece, já não há essa relação tão acidental, mas os objectos são próximos de mim, nem que seja por uma afinidade visual. Esses estão mais ligados à noção de encontrar o objecto que acho ideal para traduzir uma determinada ideia, embora deixe sempre em aberto possibilidades de leitura. É um trabalho muito aberto, tento construir algumas narrativas, mas são sempre as narrativas que se situam entre a acção e a narrativa. Não procuro representar, procuro apenas accionar alguma coisa.

Dentro das tuas vertentes de trabalho e de abordagem do acto criativo e do gesto coreográfico - entre a dança, a performance, a pedagogia e as artes visuais - onde é que situas este trabalho?

Nunca penso, no momento em que estou a trabalhar nas coisas, onde situo os materiais, porque tudo se cruza. Obviamente que estas metodologias que, nesta trilogia, estou a aprofundar melhor ou a pensar de uma forma concertada ou com mais atenção, permitiram-me - com os diferentes contextos onde desenvolvo o meu trabalho - experimentar estas mesmas abordagens que proponho a mim próprio. Portanto, estas metodologias com os objectos já implementei em 'workshops' com adolescentes recentemente, com várias turmas do ensino básico. Mesmo relativamente às metodologias que utilizei neste trabalho e também com alguns objectos que inscrevo nestas peças. São objectos banais, malas de viagem, capacetes, mochilas, 'headphones'...

Podes dar exemplo dessa metodologia, que referes, aplicada a um objecto em concreto que utilizas aqui?

Por exemplo, a exploração de casacos que uso nos dois solos, mas de uma forma simbólica. Estão por si só, mas com os grupos que trabalho pedagogicamente fiz uma exposição exaustiva de trabalhos com casacos ou com sacos de compras, sacos de lojas... A ideia é: eu proponho metodologias de trabalho, sendo que as propostas, as narrativas que se constroem, são muito abertas. Por exemplo, uma das coisas que trabalho tem a ver com esta ideia de micro-famílias de objectos. Está relacionado com a questão dos casais, que desenvolvo nos dois solos, mas que também aplico na metodologia, e depois também outras associações de objectos. Por exemplo, neste trabalho parto de objectos contentores.

O que são 'objectos contentores'?

São objectos que contém outros objectos dentro. No entanto, no primeiro solo, são objectos contentores que provocam mobilidade. São malas de viagem, sacos, há ideia de movimento. No segundo trabalho são objectos-caixa, que implicam mais uma ideia de mudança, quase uma casa em mudança. Implica mudar para estabilizar. Este tipo de metodologias de procurar objectos contentores, procurar objectos que comunicam, objectos portáteis, objectos de afectividade, objectos de identidade pessoal... Por exemplo, nos objectos de identidade pessoas tens aquilo que as pessoas levam dentro da mala, a chave de casa, o B.I., o bâton, a garrafa de água, um espelho... As coisas cruzam-se mas não como uma linha de trabalho ou estratégia. Acho que isso também faz parte da minha experiência, a minha formação também é assim. Encontro as coisas e elas fazem-me pensá-las em conjunto, não as separo em compartimentos.

No meio disso, o corpo é o quê? Um objecto?

Neste trabalho o corpo tem várias possibilidades de leitura. Em alguns casos é um objecto, noutros é ferramenta e noutros é uma espécie de narrador activo. É quase como se contasse histórias ou acções que estão fora de mim, ou outras de que faço parte mas que há uma deslocação. São micro-histórias, em que me situo perante um dilema, resolvo ou não aqueles problemas, problemas no espaço. É uma espécie de intérprete-objecto, faz parte daquela paisagem.

Continuas a situar-te dentro da dança? Ainda é possível veres-te neste universo?

Há uns anos questionava muito a noção das fronteiras, onde é que me situava realmente. Hoje em dia, isso não me interpela tanto, porque as minhas ferramentas de trabalho são as ferramentas da dança. Ao utilizar a linguagem de construção que eu utilizo é a dança.

O que são para ti as ferramentas da dança?

Trabalhar num estúdio de dança por exemplo. Ensaiar, fazer uma preparação mais ou menos intensiva de corpo, ou fazer workshops ligados ao movimento com outros criadores... O procurar conhecer o trabalho de outros criadores na área da dança, fazer formação nessa área, o trabalhar pedagogicamente partindo do movimento... Portanto, a minha trajectória tem sido utilizar as ferramentas da construção da dança, muito embora depois cruze outras linguagens que fazem parte da minha experiência ou formação mais ligada às artes visuais e às artes performativas. Estas ferramentas de trabalho que utilizo, são o corpo. Também porque trabalho muito a solo. Tenho esta condição de trabalhar comigo próprio, mas trabalhar com o meu próprio corpo, por isso para mim é claro essa questão da dança. E também porque em alguns dos meus últimos trabalhos, e este é o caso, apesar de ter uma componente muito visual e de à partida o trabalho nascer desta relação de objectos - que resulta quase como uma instalação em movimento - há uma escrita do espectáculo que é coreográfica. Logo, a linguagem, a matéria, é a da dança. Refiro-me mesmo à marcação, ao desenho de movimentos no espaço, Tenho esta ideia de fixação de movimentos no espaço. Esta coisa quase de arquitectura do movimento...

A relação com o festival Citemor começou há dois anos, com a residência de pesquisa com o coreógrafo Christian Rizzo, no âmbito de um programa da Eira. Fala-me dessa experiência.

A Eira 33 tem um projecto, idealizado pelo Francisco Camacho, em que põe em contacto dois criadores, sendo um português e um estrangeiro, mas em que o português convida um estrangeiro com quem gostasse de trabalhar, para se dar como intérprete. A escolha é feita pelo criador português motivado por uma vontade, afinidade, um interesse em trabalhar com esse artista estrangeiro e de se por na pele de intérrpete, dava-se como interprete desse criador. Eu convidei o Christian Rizzo. No nosso caso, a ideia foi pesquisar e não chegar a um objecto final, a uma peça, antes deixar em aberto e concentrar na residência, que foi co-produzida há 2 anos atrás, pelo Citemor e pela Eira. Estivemos quinze dias aqui no Citemor, fizemos duas apresentações informais aqui e depois fomos para Lisboa, para o espaço da Eira, e fizemos uma terceira apresentação informal, depois de mais um período de residência mas já em Lisboa...

Portanto, há dois contextos de pesquisa completamente diferentes: um aqui, em Montemor-o-Velho, e outro no estúdio da Eira, no edifício dos Bombeiros Voluntários, perto do Marquês de Pombal. Como se traduzem, na criação, esses dois contextos distintos?

Desde logo a questão temporal e das horas é muito diferente. Aqui é muito esticado, mas o centro é muito reduzido. Os percurso - ir do café, a comprar o jornal e ir a casa - são mínimos. O tempo rende muito. Depois há a questão de estarmos fora de casa. Pode ser fundamental para uma residência artística mas pode não ser. Depende. Neste caso em que estava a colocar-me no papel de intérprete resultou muito bem, porque foi um bocadinho o fechar a porta de casa e viajar para outro sítio. Foi assim que resultou para mim e para o Rizzo foi o mesmo. Foi sair do país dele e cair numa pequena vila, por isso era uma espécie de férias criativas.

Quando partes para o início de um trabalho, onde o preferes desenvolver?

Depende da criação. Neste solo, que aqui estou a apresentar, optei por desenvolver em Lisboa, na Eira 33, onde estou todos os dias em trabalho. Foi uma questão de optar por questões pragmáticas de criação, porque precisava de estar numa cidade, numa cidade que conhecesse, para poder comprar materiais. Eu dependo muito dos materiais e, à medida que o processo vai acontecendo, tenho de poder ir a determinada loja na rua, na baixa, que já sei onde é, ou procurar um objecto específico que não encontro facilmente e preciso de ter esses recursos acessíveis. Se não encontro esses materiais não posso avançar, não os posso testar para avançar para outro estado. Para este trabalho era muito complicado porque tinha de ter muita mobilidade, ir muito à cidade, ou mesmo a Lisboa, mas perdia imenso tempo e não era prático. Mas depende muito. E depois ia trabalhar sozinho, o que levanta esta questão do isolamento sozinho. Já estou isolado sozinho no estúdio, isolando-me mais ainda deslocando-me para fora da cidade e fora da minha casa... A mim, pessoalmente, podia-me perturbar porque não podia aceder aos materiais nem ao 'feedback' de um determinado número de pessoas. Não poderia ter acesso a coisas banais mas que para mim são importantes, como apanhar o metro. São importantes em alguns processos. Para este eram porque reflecte a questão da vida quotidiana, da minha vida pessoal e da nossa vida. Precisamente essas dinâmicas pessoais de apanhar o metro, comprar alimentos, objectos do nossos quotidiano, chegar a casa... Estas coisas são a base de trabalho deste solo. Mas noutros considero muito positivo, principalmente quando o grupo de pessoas está deslocado da sua casa. Acho que se cria um envolvimento de colectivo e de uma disponibilidade diferente. As pessoas desligam o interruptor e cria-se uma nova dinâmica...

Claudia Galhós