26.7.07

DEAMBULAÇÕES - Susana Vidal

Espaço para a reflexão aberta de pessoas que gostam de deambular.


Susana Vidal.

Montemor-o-Velho. Antes do pôr-do-sol.

A minha pele está a secar. Já há muito que não vejo a luz do sol. Já há peles para repor a nossa. A pele de tanto comê-la está a desaparecer.
Corro. Corro. Não há mais nada para fazer, só posso correr e correr. Ando à tua procura. Não te vejo. Eu não sou, eu não devo ter sido. Eu nunca saí daqui. Nunca estive de visita no céu. Sempre tive os pés na terra. Bom! As vezes também a cabeça. Mas eu nunca vi a ela. Nunca. Jamais.
Lembro-te a alguém. Lembro-te a uma imagem de uma batalha qualquer. Lembro-me de ti escancarada. Desatarraxada.
Põe fim à minha espera. O céu não quer nada da terra. A terra é que não pode viver sem pedir coisas ao céu.
Chove. É o segundo dia que chove.
16 Linhas. Sarna. Um cão. Uma mesa oca. Um copo de vinho tinto. Uma pequena dose de presunto. Porcos pretos.
Não há virgens aqui. Também dizem que não há santos, nem santas. Nem deus.
Escuta. Como eu sou horrível. Ouves. Já não deves lembrar-te de mim. O esquecimento é mais rápido do que eu. Sabias que a terra tem uma cor vermelha, que aparece e desaparece todos os dias? Não sabias. Não podias saber. Nunca ouviste o som da terra quando caminho sobre ela. Nunca.
Falta pouco. Falta pouco. Falta-me a parte direita do meu corpo. Faz-me falta.
Aniquila, ao mesmo tempo, as minhas pálpebras e o meu sexo. Somos no excesso um corpo desmembrado pelo olvido...olvido ou esquecimento, é uma mistura de coisas estúpidas. Por ti e para ti, acho que vou vomitar.
Mistifico a minha silhueta no contorno do céu sujo. Acho que vou-te matar. Matar-te. Sim. Na terra e no céu a morte funciona da mesma forma.




Olvido, Olvido acredita que perdeu uma parte de si. Olvido, não se lembra de como chamar pelos outros. As suas costas fragmentadas abrem-se e esquecem o resto.




Eles é que fizeram o enquadramento para o deixar assim, uns ficamos no céu, outros ficamos em terra.
As muletas só servem para o desprendimento.




Se conseguissem chorar todos ao mesmo tempo. Se conseguissem abrir o chão como ela abria as suas pernas.




Tu estás acima e eu abaixo. Os meus pés contra a tua cabeça. A minha cabeça a suportar o teu ínfimo peso. Não suporto falar tanto. Não suporto coçar sozinho, as minhas costas.

Susana Vidal